O Desapego, um caminho difícil para a felicidade

Jorge Bicho · 17.08.2017
  • /

“Um homem fez uma grande viagem para visitar numa longínqua cidade um sábio de que todos falavam. Quando chegou a sua casa ficou surpreendido ao ver a vida austera que levava numa casa humilde, sem móveis e apenas uns quantos livros. O viajante, espantado, perguntou-lhe: onde estão os seus móveis? E o sábio respondeu: e os teus? Os meus? - surpreendeu-se o homem – mas se eu estou aqui só de passagem; “eu também” – concluiu o sábio.

É condição essencial praticar o desapego para se ser feliz? Ou ao menos para sermos mais sábios? Ouvimos falar muito de desapego e filosofias tão contundentes como o budismo propondo como uma das vias para se chegar à ansiada felicidade.
Normalmente –por questões culturais e linguísticas – assimilamos o seu significado com pessoas que praticam o desprezo ou são “distantes” emocionalmente. Desapegado, pode dizer-se de alguém que possui pouca relação com a sua família, ou que não demonstra profusamente carinho com o seu parceiro, mas a dualidade apego/desapego significa muitas outras coisas.

O apego pode por exemplo ser uma espécie de capricho, de encantamento com uma coisa, pessoa ou situação determinada, tudo por crer que sem “isso” não será possível ser feliz.
Nasce por um lado da não aceitação da “impermanência” das coisas: nós mesmos acabamos por nos sentirmos imortais grande parte da nossa vida e nos dá medo pensar na morte como um facto que demonstra que não somos infinitos. Igualmente nos custa pensar que quando gostamos de alguém ou algo, estará connosco o tempo que for, mas logo desaparecerá, e quando pensamos, fazemo-lo a partir da dor que pode implicar essa perda, antecipando a falta antes mesmo dela aparecer.

Por outro lado, surge da nossa própria insegurança porque quando a sentimos, apegamo-nos às coisas ou às pessoas e longe de resolver a nossa angústia, esta volta a crescer por este susto crescente frente a essa perda. O desapego não significa deixar de amar uma pessoa ou deixar de sentir a falta de uma coisa, mas simplesmente fomentar a nossa autonomia, sermos capazes de não nos angustiarmos por um futuro previsível, emoção que habitualmente vicia as nossas relações com as pessoas e as coisas.
A casa, a roupa, os carros e outros objetos, são símbolos transitórios que vão e vêm. Perseguir esses símbolos equivale a “esforçar-se por aumentar o tesouro no mapa, mas não disfrutar do território.”
O Budismo revela que o apego é o produto da consciência da pobreza, centrado nos símbolos. O problema radica na identificação da segurança com a posse de coisas, voltando a colocar visível a nossa insegurança porque a tranquilidade que nos podem dar é efémera. Quem busca a segurança, persegue-a toda a vida, sem chegar a encontrá-la. Acabamos apenas por construir um cárcere ao nosso redor com o condicionamento anterior.

Os apegos podem mesmo ser muito prejudiciais na nossa vida quotidiana. Um excesso de zelo com os filhos, pode convertê-los em seres incapazes de resolver os problemas por si mesmos e aos pais, em medrosos patológicos pela perda possível.

Também em relação às coisas temos apegos neuróticos (quando por exemplo perdemos o telemóvel – que nos nossos dias quase é pior que perder a alma – gerando estados de ansiedade quase de dor) por pensarmos que todos esses acessórios nos criam um campo de proteção e o curioso é que não nos damos conta que o que cremos que nos protege está a criar uma barreira que impede relacionarmo-nos com autenticidade.

O desapego não nos retira o foco pelas metas, não renunciamos à intenção pelo resultado. Vivemos o aqui e o agora e gostamos do que acontece, o que nos acompanha, sem colocar expetativas futuras. E é este detalhe, este pequeno detalhe que na realidade faz a verdadeira transformação na nossa forma de nos entendermos e entender o mundo.
Para iniciar este caminho do desapego, devemos procurar fora de nós as coisas que nos fazem felizes. Ligarmo-nos de forma mais intensa com o nosso eu interno fará crescer a nossa confiança de forma a dar-nos a dimensão real ao que nos acontece, e sobre tudo, ser consciente que as pessoas e as coisas simplesmente nos acompanham:

“Todas as coisas a que te apegas, e sem as quais estás convencido que não podes ser feliz, são simplesmente os teus motivos de angústia. O que te faz feliz não é a situação que te rodeia, mas os pensamentos que existem em ti e na tua mente …”

adaptado de um texto de: Luis Llorente
Centro del Coaching
http://centrodelcoaching.es/