O Medo

Jorge Bicho · 08.06.2017
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O que pode fazer com que uma esponja do mar a 600 metros de profundidade mude de cor e aparentemente se converta numa pedra sem interesse?  O medo. O que faz com que uma avó salte com inusitada agilidade para cima duma cadeira ao ver um pequeno rato? também o medo. A definição clássica do medo é “uma sensação de angústia provocada pela presença de um perigo real ou imaginário”.
Dizem que o medo é filho da ignorância e pode ser verdade, mas é muito mais; é uma emoção que nos acompanha desde que nascemos e que temos bem identificada pela sua incomodidade e porque tende a esmagar outras emoções mais agradáveis. Sentimos, sobretudo, medo do desconhecido – outra vez a ignorância-, e é quando algo obscuro se racionaliza, que muitas vezes consegue perder em grande parte o elemento atemorizador e perturbador. Horácio dizia que “Quem vive temeroso, nunca será livre”. O saber faz-nos mais livres, porque a liberdade pode ser a ausência do medo.
Mas do que não podemos duvidar é do seu aspeto prático. Temos medo porque estamos alerta; porque, para sobreviver, os seres humanos tiveram que estar vigilantes e desenvolvemos essa capacidade – como o resto das espécies - de estar “sobre aviso” ante qualquer eventualidade que se apresenta e que nos ameaça a nós ou aos nossos. Mas claro, a situação emocional que nos provoca muitas vezes é perturbadora, ameaçadora, às vezes, insuperável. E isto porque, a diferença entre os animais, que sofrem de medo instintivamente, é que os humanos levam o medo ao pensamento através da linguagem e são capazes de transcender o processo bioquímico e realizar um processo cognitivo.
“Não temas nem a prisão, nem a pobreza, nem a morte. Teme o medo.” Giacomo Leopardi
Fisiologicamente é todo um quadro que desperta a nossa biologia: primeiro os sentidos captam o foco do perigo, passando a ser interpretado pelo cérebro, e daí passa à ação o sistema límbico. Este encarrega-se de regular as emoções de luta, fuga, e antes de tudo, a conservação do indivíduo. Para além de tudo isto, também se encarrega da constante revisão da informação dada pelos sentidos, incluindo quando dormimos, para poder alertar-nos em caso de perigo. ...
É como, se corressemos uma maratona perseguidos por uma manada de touros bravos. Mas o certo é que em muitas poucas ocasiões estamos realmente ante um perigo real que implica risco para a nossa vida e que, portanto, necessita ativar tantos alertas.
Com efeito, o medo foi um recurso imprescindível nas sociedades pré-históricas, já que salvaguardava os nossos antecessores de perigos como os predadores, as inclemências do tempo e outras ameaças, colaborando assim na sobrevivência da espécie. Mas à medida que as sociedades foram avançando, as grandes ameaças foram diminuindo. No entanto, o medo ficou instalado na nossa consciência, pelo que as ameaças de outro tipo foram utilizadas em muitas ocasiões pelos grandes poderes para controlar as massas ou para moldar as populações à sua vontade.
Mas, o que representa o medo na nossa vida? Como afeta o nosso carácter, as nossas relações, os nossos processos de decisão?
Aplicamos o conceito “medo” a situações do dia a dia nas que o nosso cérebro reptiliano reage quando não deveria; dizemos que “temos medo de encontrar um engarrafamento à saída do trabalho”, por exemplo. Mas, isso é medo? a linguagem trai-nos.
Sobrevalorizar os medos de que sofremos, acontece a 90% das pessoas nas suas tarefas diárias. Os medos são reais na maioria dos casos (perder o trabalho ou o conjugue, não contar com a proteção da família, ou uma doença) mas convertem-se em pesadelos quando acrescentamos um medo de tipo médio até convertê-lo em insuperável, normalmente por desconhecimento. Aparece assim um monstro maior que a capacidade que julgamos ter para superá-lo.
Há outros medos que podem ser irracionais, mas são baseados em situações que se podem produzir. Um colega tem pesadelos porque acha que pode perder o seu estatuto oficial, alcançado há mais de trinta anos atrás. Curiosamente, o seu pai (médico aposentado com uma carreira longa e bem-sucedida e ainda a trabalhar como voluntário numa clínica) continua a sonhar que pode não passar no exame para a admissão para a faculdade. São estes medos racionais? Correspondem a factos que poderiam confirmar ambos os casos? É claro que sim. No primeiro caso, embora seja improvável não é impossível, mas não no segundo caso, enquanto para algumas pessoas isso se torna uma obsessão primeiro e depois num medo insuperável, para a maioria não é mais do que uma anedota.
Duma forma extrema está o medo convertido em patologia e que nos impede de levar uma vida normal. As fobias são um bom exemplo. A agorafobia, por exemplo, é um medo insuperável dos espaços abertos, o que leva às vezes a converter-se numa patologia que não permite levar uma vida normal..
O medo, de alguma forma não é qualificável, de tão subjetivo, mas alguma da tipologia associada, pode ser: ansiedade, stress, sobressalto, fobia e pânico.  Ou outra mais original: medo exterior, medo interior e medo subconsciente. Em qualquer caso, cada um sente os seus próprios medos e tentamos superá-los com as nossas ferramentas.
De vez em quando há necessidade de ajuda para caminhar para a frente, para atravessar com plena consciência o processo que envolve esta emoção tão contraditória; e nesta travessia são fundamentais as aprendizagens a que podemos recorrer noutras alturas da nossa vida.
O coach trabalha muitas vezes acompanhando clientes com medo, incluindo pânico. Medo de um chefe que provoca paralisia em vários momentos, medo do fracasso, medo de subir, medo do conjugue, medo do pai e a tudo o que essa figura representa ao longo da vida …
As conversações são trabalhadas para nos levar a um processo em que, em primeiro lugar se procura a tomada de consciência. Cognitivamente, isto ajuda-nos a estabelecer as bases desse medo e as suas dimensões, tentando trazer à realidade todo o possível. Introduzimos perguntas como: “que farias se não tivesses medo? com quem estarias? como seria a tua vida? quantas coisas renunciaste por medo de fracassar ou ser rejeitado? que queres fazer com o teu medo?”
O segundo passo do processo consiste na aprendizagem da gestão dos pensamentos que nos paralisam: identificamos o lugar donde surgem e, a partir daí, é necessário atuar, ajudar o cliente a que volte a pensar de forma racional. Implica identificar a dificuldade concreta e, basicamente aprender a separar factos de juízos. Trata-se de ajudar a manter o nosso cliente no foco sem dispersão, a separar e limitar a questão do resto dos elementos que possam interferir concentrando a energia.
Depois caminha-se até ao “sentir” para poder desfazer todos os nós; estamos atentos aos sinais corporais para localizar as sensações físicas e identificar onde se cortam os canais de energia: a respiração, a postura, etc. serão pistas essenciais para rastrear e manejar os episódios de medo quando apareçam. É preciso que as emoções negativas se vão desfazendo e, em seu lugar, apareçam mecanismos que permitam afrontar essas situações com serenidade e conhecimento.
O coaching dirige-se aos resultados, e para isso é necessário passar à ação. Neste caso, o que interessa é soltar, soltar e soltar, abandonar as crenças que nos levam a situações onde o medo nos domina, nos agarra pelos pés e nos impede de nos movermos.
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• O pensamento  “reptiliano” regula as funções fisiológicas involuntárias do nosso corpo e é o responsável da parte mais primitiva de reflexo-resposta.
Adaptado dum texto de Luis Llorente – Espacio Positivo Coaching Granada