Somos chefes ou somos líderes?

Jorge Bicho · 21.04.2017
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Há muito tempo que nos fóruns de gestão de negócios se discute sobre estes conceitos, comparando, confrontando e analisando a sua coexistência. Agora podemos dizer que é um debate que aponta numa direção. O futuro é o líder e o chefe é parte do passado, algo que deve ser deixado para trás. E são poucos os que duvidam dos benefícios da gestão, liderando em vez de gerir a partir do peso da autoridade. E a maioria das pessoas convencido das vantagens do líder sabe que qualidades devem enquadrar esta figura e o que representa. No entanto, a realidade empresarial mostra uma imagem radicalmente diferente, em que os chefes continuam a ser a maioria esmagadora.

O que falha? Por que não somos capazes de passar da teoria à prática? Antes de responder a esta pergunta, devemos rever algumas dessas características distintivas entre chefe e líder. Uma das mais importantes é que, enquanto a autoridade é algo que o chefe tem e exerce sem exigir a permissão dos subordinados, a liderança é algo que tem que a receber de seus seguidores. Eu só posso liderar quando são os outros que optam por seguir-me. Quanto às características da liderança, os livros dizem que deve ser exemplar, transparente, empática e honesta.  Devemos saber como gerar credibilidade e confiança, ser capaz de ouvir, tomar decisões e arbitrar os objetivos da empresa com o crescimento da nossa equipa.

E se nós temos tão claramente tudo isto? Por que é que a maioria das pessoas não conseguem dar este passo de chefe a líder? Não é por falta de interesse ou porque essas tentativas não são honestas. Muitos tentam e alcançam progressos significativos, o que sugere irem no caminho certo. No entanto, muitos derrapam no momento em que realmente a liderança é testada: quando surgem as adversidades. Nesses momentos de dificuldade não são suficientemente fortes, os seus valores cambaleiam. De um só golpe, sem perceber, voltam ao ponto de partida.

É muito frustrante para quem tenta. Mas por que não conseguem? A resposta é simples e difícil ao mesmo tempo. Porque ser um líder é muito difícil. Ser um líder é um caminho íngreme, um caminho de serviço. Ele deveria dar muito e receber pouco. Poder, imagem e reconhecimento público são as principais aspirações do chefe. O verdadeiro líder não busca nada em troca de seu serviço.

Para isto é preciso acrescentar que partimos de uma estrutura que torna as coisas mais difíceis. Os negócios estão a mover-se num clima de crise permanente. A melhoria contínua, constante reciclagem, a adaptação a uma mudança que não cessa ... As empresas vivem instaladas na transformação e sensação contínua de urgência no seu interior. Maximizar a eficiência e otimizar, estas duas principais premissas da administração fazem com que as organizações vivam no limite. Com foco no curto prazo e esquecendo que há coisas que só podem ser construídas no médio e longo prazo.

É neste contexto, dominada pelo dificuldades, pressa e ruído, em que o líder que queremos ser, se volatiliza e se torna o chefe selvagem. Porquê esta súbita transformação de Jekyll para Hyde? Muitas vezes, a razão, a encontramos em que essa pessoa está amarrada em emoções das quais nem tem consciência. O medo, ingrediente necessário em qualquer história de terror que se aprecie, é a principal. O Medo e a pressão diante da adversidade, que faz aflorar o ego, a desconfiança ou falta de empatia. Quando os valores do líder não são sólidos, a liderança não se sustenta.

Em oposição, o verdadeiro líder é consistente, ele trabalhou profundamente o seu ego e quando aparecem más situações, permanece firme na sua escala de valores e na sua lealdade. Como chega a este estado? Através da introspeção. Qualquer pessoa que pretenda liderar uma equipa deve fazer um profundo exercício de autoconhecimento. A chave da liderança é tentar descobrir quais as suas necessidades e aprender a geri-las. Entrar em contato com as suas emoções para reconhecer e geri-las, em vez de permitir a sua interferência no seu dia a dia. Assumir a responsabilidade pelas suas ações e não atirar bolas fora.

Outro ponto-chave é a aceitação de si mesmo. O reconhecimento do que se é. Introspeção e autoconhecimento permitem que um líder se aceite completamente, incluindo as suas falhas. Esta aceitação que lhe dá direito a cometer erros e reconhecê-los naturalmente sem necessitar de culpados, deixando a porta aberta para a aprendizagem. E se ele pode fazê-lo sozinho, será também capaz de fazê-lo com os erros da sua equipa.

Em suma, o caminho da liderança é um caminho íngreme que não pode ir sem um alto conhecimento de si mesmo, das nossas qualidades, das áreas de melhoria, dos nossos limites e dos valores profundos que nos movem.

adaptado dum artigo de José Manuel Sánchez,
Centro de Estudios del Coaching